18/08/2006 ..

Almoço em família – parte I



Chegaram todos juntos, uma típica família francesa, alegre, divertida, cativante. Eu e o Claude somos muito amigos, é claro que a gente não tem muito tempo para estar junto, mas temos uma cumplicidade desde que nos conhecemos.

Na matéria que saiu esse mês na revista Prazeres da Mesa, eu falo pela primeira vez sobre os “nãos” que recebi quando tentei alguns estágios nas cozinhas de alguns chefs brasileiros no início da minha carreira. Foram muitos. Não, espera aí, foram todos! Nunca consegui ser recebida na cozinha de nenhum chef brasileiro, nem para descascar batatas! E olha que eu descasco batatas como ninguém!

Enfim, o Claude não entra nessa, sempre foi muito amigo, companheiro e extremamente generoso. Essa última qualidade é imprescindível para um cozinheiro, sem ela, simplesmente não dá! Doação é a nossa palavra de ordem, todos os dias, todos os instantes.

Quando resolvi oferecer esse almoço ao Pierre Troisgros a minha intenção foi exatamente essa, retribuir toda a generosidade que recebi do Claude desde que nos conhecemos, proporcionando um simples e verdadeiro almoço em família.

Ele me perguntou: quem você quer convidar?

E eu respondi: a sua família!

A única coisa que não abriria mão, era de fazer parte dessa família por algumas horas.

Acredito que desde que abri o restaurante, nunca tenha saído da cozinha para me sentar à mesa enquanto servia alguém, importante ou não, não importa. Às vezes até me criticam por isso, dizem que fica chato, que o homenageado quer me ter à mesa, que é um sinal de respeito e reverência. Ou que fica parecendo que eu não confio na minha equipe e coisas desse tipo. Não é nada disso! É que o meu lugar é simplesmente na cozinha! É lá que eu me sinto bem, acolhida, feliz, radiante, intensa. Adoro estar ali naquele calor com a minha brigada, me sinto em casa.

Na terça-feira, sem que ninguém soubesse, resolvi que sentaria à mesa com os Troisgros por três motivos: primeiro por que não perderia isso por nada desse mundo; segundo, por reverência, respeito e absoluta tietagem ao mestre; e terceiro e talvez o mais importante, por respeito à minha equipe...

Passamos toda a manhã juntos na cozinha, perdemos uma fornada de pães junto, sofremos e ficamos ansiosos juntos! Mas em nenhum momento eles suspeitavam do que eu faria. Assim que me avisaram que Pierre Troisgros estava a caminho, reuni todos como se fossemos começar e disse:

- Hoje vocês não só irão cozinhar para o mestre Troisgros, como vão tocar a cozinha sozinhos, essa é a minha homenagem a vocês, que todos os dias me homenageiam com tanta dedicação. Confio em vocês, respirem fundo, dêem um grito e vamos lá.

E eles gritaram: “sim chef!”. Chorando é claro, a gente chora por tudo!

Pode parecer bobagem, mas eu sei o que isso significou, o quanto eu devia isso para cada um deles e o quanto eles jamais imaginaram que isso poderia acontecer. Esperei por esse momento, tão singular e especial, para reverenciar não só o mestre, mas os meus companheiros de batalha.

Segunda-feira tem mais...

Até e viva, viva, viva!
17/08/2006 ..

Loucura e verdade!


Os dias andam assim, uma loucura e ao mesmo tempo intensamente verdadeiros. Tenho tentado programar os meus horários para que a hora de escrever o blog seja sempre sagrada, mas ontem não deu. A rotina de um restaurante não é moleza...

Muitas vezes as pessoas não tem a menor noção de tudo o que acontece nos bastidores para que a mesa esteja bem posta, os guardanapos bem dobrados, o pão quentinho, o vinho na temperatura certa e o peixe no ponto exato!

É um trabalho ininterrupto desde as primeiras horas do dia, um trabalho que não permite erros, nem deslizes. O nosso nível de exigência está sempre no volume máximo, o do cliente também, então, não há espaço para nada além da excelência! Mas essa é muito difícil de se alcançar, apesar de batalharmos por ela todos os dias!

A verdade é que esse espaço é para mim de verdade! Então, não posso escrever o que não está dentro de mim. Seria como preparar um prato que não acredito, e isso me dou ao luxo de não fazer nunca.

Outro dia me perguntaram se era um assistente que respondia e escrevia o meu blog? Quando eu disse um "NÃO!" bem redondo e rechonchudo, me perguntaram porque eu não solicitava um para cumprir essa tarefa já que andava tão sobrecarregada de trabalho.

Olha, eu não sei se isso acontece por aí, espero que não, mas para mim, parece inadmissível que possa acontecer! Se eu não puder escrever o meu blog, responder aos meus e-mails, estar na minha cozinha com a minha brigada, participar de tudo o que amo, então não faz sentido. E o que não faz sentido não me encanta.

Esse espaço me encanta, a vida me encanta, a luta me encanta e me estimula, momentos como os que vivemos à mesa com os Troisgros me encantam e me fazem acreditar na excelência da verdade. E a verdade é que descrever tudo o que sentimos e vivemos ontem ao servir e conviver com o mestre Pierre Troisgros e sua linda família não caberia nesse espaço hoje.

Além do dia hoje não estar fácil, tudo ainda está tão profundamente dentro de nós que nem eu e nem minha equipe temos conseguido falar sobre isso... Para vocês terem uma idéia da magia que se instalou em nossa mesa, em nossa casa, em nossa cozinha, chorei eu, chorou Claude, Pierre, Lucas, Zefa, Sub Júnior, Dani, Patrícia... e outros.

Foi tudo muito intenso, profundo e verdadeiro, então, se vocês me permitem, prefiro falar da poesia desse momento amanhã...

Talvez hoje fosse um bom dia para um assistente escrever o meu blog, afinal, vocês já perceberam que não estou lá muito bem... Mas isso é a verdade. Isso somos nós! Viva!

Até!
16/08/2006 ..

Atrasinho


Gente, hoje o dia está super agitado no restaurante e não consegui até agora parar para escrever com calma sobre o almoço de ontem. Para não deixá-los ainda mais ansiosos, enquanto isso, vocês podem conferir a matéria feita pelo pessoal aqui do Ego que também esteve lá. Com direito a muitas fotos!
15/08/2006 ..

Pierre Troisgros na minha mesa...



É um sonho, é mesmo. Hoje é um dia especial no restaurante, para toda a equipe. Todos nós sabemos o quanto esse momento é único e queremos aproveitá-lo e vivê-lo ao máximo.

Conheci o grande chef em Porto Alegre, alguns anos atrás. Estava participando de um evento de gastronomia, ele entrou na minha cozinha suavemente, com aquela simpatia e humildade típica dos que não precisam provar nada. Quis saber qual seria o menu, passeou comigo pela cozinha provando todos os pratos e diante do meu couscous de rúcula, parou, experimentou, sorriu e disse: “très bon!”.

Foi um momento comparável às grandes emoções que senti com os banquetes que preparei no Palácio da Alvorada. Entre eles, um dos mais marcantes foi o jantar oferecido ao presidente da Itália Carlo Ciampi, comparado por ele a um banquete renascentista.

É claro que essas coisas não se esquecem, e nem deveriam ser esquecidas, afinal é para isso que a gente trabalha e se doa com tanta intensidade. Pelos elogios? Claro que não! Pela emoção, é isso que nos importa.

Muitas vezes o elogio não é o que conta, nós sabemos distinguir a felicidade e a emoção que provocamos nas pessoas, e acreditem, muitas vezes elas não tem nada a ver com elogios. A emoção sim, essa fica clara, nítida e transparente, é verdadeira e natural e começa sempre nos bastidores! Quando se corta uma carne, quando se salteia um legume, quando se acrescenta uma pitada de sal e pimenta do reino, sempre moída na hora! É nessa hora que a gente sente a emoção de quem faz o que acredita e isso dispensa elogios, dispensa apresentações!

Por isso hoje é um dia tão importante. Naquele dia ele não se sentou à nossa mesa, estava muito cansado da viagem, mas hoje ele se sentará. E hoje nós viveremos esse grande momento com a reverência de quem acredita no que faz. É o que importa.

Amanhã conto como foi e o que vocês mais querem saber: o que servimos a Pierre Troisgros!

Até!
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